sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O valor de uma simples Orquídea

Houve dias em que era ela que me dava ânimo para abrir os olhos e enfrentar mais uns minutos…

Ninguém imagina a companhia e o consolo, a sensação de ser amada que se pode obter através apenas da observação através de uma barreira de vidro, de uma singela flor.

Todas as manhãs acontecia o mesmo ritual:
Carregar no comando, subir o estore, e dar de caras com ela… Bom Dia! Pelo menos que seja mais um, pensava…

Mas também nem sempre ela estava tão viçosa como deveria.
Nesse Agosto esteve um calor infernal, e ali a sauna imperava… É claro que com a chegada de uma mão amiga, desde familiares a senhoras da limpeza, também ela se rejuvenescia… Fosse por uma palavra de carinho, um toque, ou mesmo uma gotinha de água.

Lá estava ela, todo o dia, suportava as horas de calor, umas vezes mais observada outras passando mais desapercebida, por lhe roubarem o protagonismo, mas nunca esquecida ou abandonada, esses sentimentos nunca a assolaram.

Só baixava o estore quando realmente, já não houvesse réstia de luz natural na estufa privada da minha orquídea. Quando tinha mesmo de ser… quando sabia que só no dia seguinte é que teria mais uns miminhos… Boa Noite, assim o espero!

Toda aquela planta representava o apoio e carinho dos meus… nunca me senti só, mesmo estando-o tantas vezes fisicamente! Ela alegrava a estufa… Não havia quem não reparasse nela… Irradiava luz, amor e esperança!

… A todas as Orquídeas da minha vida…

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Indignações sobre umbigo centrismo

O que vemos no parceiro será amor ou uma garantia pré-concebida de futuro? Aquilo que se adequa melhor a nós! Ama-se a pessoa ou simplesmente se ama o futuro que aparentemente iremos ter com essa pessoa? Será apenas uma questão de egoísmo? Apreciam-se aquelas características físicas específicas, determinada maneira de ser, pensar e agir, o trabalho bem remunerado, a família agregada agradável ou não, a saúde poder embargar o futuro ou não (por exemplo num caso de infertilidade).

E com que objectivo? A procura da felicidade? É isso que todos almejamos. Ser felizes… Felicidade, a meu ver, são apenas momentos!

Afinal somos todos interesseiros? Quero acreditar que não! Que ainda existem pessoas que gostam de nós pelo que somos e não pelo que poderemos ou não vir a proporcionar a cada um… Seja aquilo que for, como uma casa cheia de filhos, ou um nível de vida estável e rotineiro sem grandes turbilhões.
Mas será que ninguém pensa que imprevistos acontecem? E quando acontecem, estaremos todos à altura de os enfrentar e aceitar. Ou agiremos como cobardes e enterraremos a cabeça na areia? E tudo aquilo que era cor-de-rosa passou a ser tão negro de repente… tão azedo e insuportável porquê? Os obstáculos não é suposto estarem lá para os derrubarmos? Ninguém está para sacrifícios ou cedências? O único que estava morreu na cruz e pelos vistos de pouco lhe valeu, para salvar a alma humana, a avaliar a actual situação.

Estou confusa… :(

sábado, 6 de setembro de 2008

Este vai ser curtinho

Sempre gostei de ler…Sempre gostei de comprar livros…Ultimamente compro imensos…Um dizia esta verdade que tento tomar como minha:

«É normal sentir tristeza quando não se está bem. Muitos tipos de perdas podem acompanhar a doença: alterações das capacidades, do aspecto, do desempenho profissional, das relações e do estilo de vida. Enfrenta as tuas perdas e dá largas ao teu sofrimento. Depois podes seguir em frente.»

É certo que, uma recuperação lenta ou quase nula provoca em mim desânimo, tristeza e uma imensurável dor. Mas não posso deixar que a doença me defina. A minha identidade é muito mais que isso. Aqui partilho pensamentos e fico aliviada por ouvir palavras de conforto e apoio, parece que a dor se vai tornando aos poucos mais pequenina a cada palavra de incentivo e coragem que leio. Ajuda-me no tal processo de poder seguir em frente.
Agarro-me à esperança de que um dia estes momentos de ansiedade não passarão de uma recordação.

A todos quantos por aqui passaram para me deixar uma palavra amiga, uma palavra de apoio, consolo e força, o meu muito obrigada. Dá-me alento para continuar e fico extremamente comovida com este carinho manifestado através desta auto-estrada da informação… Alguns momentos tornam-se mais leves ao reler todos os comentários de força, são uma bênção indescritível. Obrigada a todos!

domingo, 17 de agosto de 2008

Quando a vida é pouco mais que sobreviver...

Quando a tristeza nos invade é demasiado difícil de superar, agora pense-se em 3 anos de tristeza, e cada vez mais pesada, sem nunca aliviar! Estou tão cansada.
É como me sinto, profundamente triste e cansada.
Nada do que fiz corresponde ao que queria para mim, nada do que me rodeia é o que quero para mim, e aquilo que quero demora a chegar…
Quanto mais tempo é preciso estar neste impasse? Nem me curo. Nem morro. Porquê tudo na minha vida são impasses? A minha primeira revolta contra esta maldita doença, foi quando um dia em conversa com a minha mãe, e depois de muitas vezes pensar nisso, conclui que: adoecer na altura que adoeci, foi o pior que me podia acontecer…

Passo a explicar e perdoem-me todos aqueles que pensam que tenho a presunção de achar que apenas na minha idade é mau adoecer, não penso isso, de todo, é péssimo para qualquer pessoa, tenha que idade tiver. Assim justifico-me, porque na tal conversa com a minha mãe, discorri que se tivesse ficado doente em criança, eventualmente nunca me aperceberia bem da realidade e dimensão dos problemas (se ainda hoje me custa a aperceber, quanto mais…), nunca deixando de sofrer, mas possivelmente a tentar ter uma vida o mais normal possível, se pudesse indo à escola, etc. Se me curasse, é lógico que nunca esqueceria esse trauma, mas iria sendo aliviado com o passar dos anos e faria a minha vida normal.
Se, ao contrário, adoecesse mais velha, possivelmente casada, com filhos ou netos, a trabalhar, e a viver a rotina do dia-a-dia normal, teria plena noção do que me estava a acontecer, sofria evidentemente, mas já tinha algo meu. Uma família, um trabalho, algo realizado. Curando-me, voltaria a trabalhar e à rotina. Caso contrário, teria vivido mais, aproveitado mais, experimentado mais, deixado descendência ou não. Nunca se sabe…

Agora, no meu caso, que estava a concluir o meu curso, e a tentar ingressar no mundo do trabalho, o caso muda de figura. Apanharam-me numa fase de transição da minha vida. Nem vivi pouco, como uma criança, apercebo-me bem do que me está a acontecer, nem vivi o suficiente para deixar raízes minhas. Como continuo doente e não tenho ocupação, visto já ter acabado o curso, e ainda não ter tido o meu primeiro emprego, é-me complicado arranjar hobbies que também não sejam árduos para a minha actual condição. Logo pensa-se em tudo. O que se deve, e o que não se deve! Se me curar, à partida não vou poder exercer a minha profissão, ora porque sou demasiado velha e sem experiência de trabalho, ora porque ninguém dá trabalho a pessoas que tiveram cancro. Não poderei comprar casa, porque não me concederão empréstimos, não saberei se vou poder ter filhos, ficarei sempre com sequelas de tantos tratamentos, sabe Deus, com que qualidade de vida, etc… VIVERIA, e isso é o mais importante, mas com que futuro?

Condição igual em todas as idades é o sofrimento infligido pela doença e a morte. Todos morreremos, a questão é: quando? Eu penso muito nisso, e quando se está tão cansada quanto eu, de suportar tanta dor física, mas acima de tudo de alma, quando a dor vem de perto torna-se insuportável, quando a mágoa começa a ser um habitante muito frequente do coração, quando à minha volta tudo se começa a desmoronar de tanto cansaço e desespero, deixando de existir união, quando passa a existir incompreensão, mesmo dos mais queridos, quando todos os que podem fugir, fogem, porque é normal, eu também queria poder fugir, não aponto dedos a ninguém compreendo-os, estão cansados, tal como eu, quando a “vida” passa a ser pouco mais do que sobreviver, apenas peço paz e descanso. Mas quando?

Porque todos temos dias, fases assim. Porque nem tudo é positivismo, apenas porque sim…

terça-feira, 22 de julho de 2008

Cada caso é um caso

A frase com mais sentido que alguma vez ouvi.

Uma das primeiras coisas que lembro ao dar entrada de urgência Capuchos, ainda mal tinha entrado na hematologia, e posteriormente nos primeiros internamentos, é de ouvir esta frase, tanto da boca de auxiliares, médicos, enfermeiros, doentes, etc.

No início, lembro-me de gravar a frase na minha cabeça e pensar: ya, claro que cada caso é um caso, eu não sou como “eles”, para mim tudo é passageiro, a mim não me vai acontecer nada, que não seja ultrapassar este grande pedregulho no meu caminho, não me vou influenciar com nada exterior, nem quero ouvir más experiências, ou relatos menos cor-de-rosa, porque isso não faz parte do meu mundo da minha luta! Como estava redondamente enganada só por pensar assim, já estava dentro desse mundo e não eram “eles” mas sim Nós…

Assim sendo, nós, como imenso grupo de pessoas com a vida interrompida, ouvimos esta frase, mas será que todos pensam e analisam a frase do mesmo modo que eu?!
Passado tanto tempo e tantas peripécias, tanto sofrimento partilhado, tantas lágrimas derramadas a ouvir relatos de tristeza, e a fazer aquilo que disse não querer fazer, que foi envolver-me, chego à conclusão que somos todos seres únicos e extraordinários, dotados de capacidades inimagináveis, com uma resistência imensa, que reagimos de diferentes formas a estímulos externos iguais, uns reagem bastante mal a todos os tratamentos e felizmente no fim, quando realmente interessa o organismo cede e o mal desaparece, a guerra é ganha. Já outros, como eu, por mais que façam, o organismo não cede de modo algum, para já...
Rapidamente o “eles” passou a nós, esta grande família, Capuchos family, com a qual vou vivendo mês após mês, tratamento após tratamento, partilhando alegrias e tristezas, vendo amigos partir, outros a começar a sua luta, outros a dá-la como terminada e vencida, outros continuando o seu caminho assim com eu, porque evidentemente que cada caso é um caso!

“Eles”, os outros, somos todos nós, porque não acontece só aos outros, mas sim a todos nós.

Acredito na ciência e na capacidade dos investigadores de descobrir a minha cura, sinto que estão cada vez mais perto e quero acreditar em Deus, ter fé e esperança, que tudo conjugado e se traduza no meu milagre!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Agradecimentos

Eis senão que quando me deparo com mais uma daquelas fases… e das boas! Para a frente é que é o caminho, embora comece a olhar cada vez mais para trás. Não está nada fácil…
Sinto que devo agradecer a todos quantos me têm apoiado e ajudado ao longo destes cerca de 2 anos e meio. Começando por todos o que me rodeiam e gostam de mim incondicionalmente, como a minha família: mãe, pai e Guia, Beta, puto, avós, tia, tios e primos, madrinha, padrinho, mesmo todos aqueles que não sabem demonstrar o seu apoio verbalmente, porque claro que cada um de nós sofre à sua maneira, e todos sofrem, sim porque estas doenças afectam todos os que rodeiam o doente. Sinto o vosso apoio sempre, são a minha base de sustentação, não se esqueçam disso nunca. Posso ser um ser único, mas fui feita à vossa imagem, e por tal agradeço-vos muito e estou orgulhosa de pertencer a esta família. Ah é claro nunca me poderia esquecer da Noca, hehehe! Companheira fiel de todos os dias, tanto os alegres e tristes. Adoro-te mémi-cão!

Agradeço também a todos os amigos verdadeiros, aqueles se realmente se interessam em saber e não perguntam apenas por perguntar, por mera curiosidade, todos esses amigos sabem quem são, uns distantes espacialmente mas nunca distantes do pensamento e coração e outros bem mais perto, amigos recentes com afinidades maravilhosas e características positivas e energias altas que me põem o astral em cima, outros de longa data, cuja vida se encarrega de os fazer mais distantes, mas sempre amigos.

Amigos de ocasião: a esses também agradeço por me fazerem ter uma perspectiva de vida algo diferente, fazendo com que me apercebesse das coisas realmente importantes: gostar de mim e de quem gosta realmente de mim. Tentar não perder tempo com futilidades banais, do diz que disse, do que tem, do que poderia ter, etc. Do mal que me fizeram tiro apenas a boa lição que aprendi. Tento não desperdiçar os meus momentos únicos e vivê-los tranquila, em paz de espírito e ser feliz, mesmo dentro das minhas adversidades. Que sempre assim seja, mesmo quando ficar completamente bem!

Aos meu colegas e professores de cursos, tanto da licenciatura, assim como da pós-graduação. Seria cínica se afirmasse que todos me marcaram da mesma maneira, a todos o meu obrigado por se terem cruzado na minha vida, mas em especial aos que continuam a fazer parte incondicional dela.

A todos os doentes com quem tive o prazer de privar e suas famílias, aos que já partiram deste mundo e muita falta me fazem, aos que continuam a sua luta pela vida, e aos que felizmente se encontram bem. Verdadeiras lições de vida que para sempre ficarão na minha memoria.

Last but not least, a todo o pessoal médico, enfermeiros, auxiliares, técnicos administrativos, senhoras da limpeza, ao capelão, a todos quantos me deram uma palavra amiga na hora certa mesmo sendo desconhecidos, a todos que por mim têm passado e assistido também à minha luta, mas a minha maior vénia é em especial para pessoal do Hospital Santo António dos Capuchos de Lisboa, que se mostra sempre incansável, têm sempre um sorriso, mesmo eu me apercebendo de todas as dificuldades que têm em trabalhar num serviço tão triste, trabalhando com tantos revés técnicos devido a cortes orçamentais, mas sempre bem dispostos, atenciosos, verdadeiros heróis, por nos apoiarem, aos anjos de branco agradeço a sua loucura saudável que me acalmaram tantos momentos pesados, o seu sentido profissional e competente que também me aliviaram em muitos momentos aflitivos. Aos deuses de bata branca, em especial aos que comigo lidam mais de perto, espero que possam sempre ter uma luzinha de clarividência para que possam sempre tomar as decisões mais acertadas. Excelentes profissionais que dão o que têm e o que não têm… Podem ter a certeza que de mim têm a verdadeira admiração e orgulho por vos ter conhecido a todos.

Peço desculpa se me esqueci de referenciar alguém, a lista é longa, mas a cabeça também já não é a mesma! Se me esqueci perdoem-me, mas também se sabem que aqui deveriam ter sido mencionados é porque também sabem que fazem parte da minha vida e dos meus agradecimentos! Lol

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Diagnóstico KO

Eram mais umas férias de Natal... E como sempre em vez de ter tempo para me passear pela rua, ajudar os meus pais na loja ou outra coisa qualquer, tinha de me aplicar nos tão famigerados trabalhos de fim de semestre, que nesse ano eram mais que muitos, e que eu parecia não ter mãos a medir. Até pensava ir a Beja, onde estudava, durante as férias para adiantar algum trabalho. Não que fosse desorganizada ou desleixada com a escola, e tenha deixado tudo para o fim, mas porque nesse ano estava mesmo a ser muito trabalhoso. Eram trabalhos, exames, organizar o projecto de fim de curso, muito stress, não estava fácil. Para agravar toda esta situação, sentia-me muito cansada, constipada e não dormia quase nada pois passava as noites a tossir e com dores de costas.

Mas enfim, para que servem as férias senão para ir ao médico também, é claro que longe da nossa terra não perdemos tempo nos hospitais, sem que seja urgente claro!

Nunca tal tinha acontecido, mas nessas férias fui a última a abandonar a casa de Beja, onde morava mais três raparigas também estudantes. Todas tínhamos carro, e como fiquei a aproveitar o tempo até mais não para fazer trabalhos de grupo, atrasei-me com as arrumações das malas de viagem e fui a última a sair de casa, por isso fiquei de desligar o gás, fechar as torneiras de segurança, ver se estava tudo bem para ir embora. E assim foi. Quando saí de Beja já era noite embora ainda nem fossem oito horas, mas como era inverno, estava muito escuro. Odiava fazer as viagens para casa assim, sozinha e de noite. Havia muitos locais do percurso em que não havia rede de telemóvel, nem povoações, nem nada! Pensava muito: "se furo um pneu estou arranjada!" Mas isso nunca aconteceu, pelo menos até hoje. O que sei é que cheguei a casa muito cansada da viajem, de vir a conduzir durante uma hora e tal, de me doer a perna esquerda imenso da embraiagem, a vista por causa das luzes dos outros carros, o braço esquerdo do volante, sei lá de tudo!

Cheguei a casa e deitei-me no sofá. Dormi. Não era normal para mim dormir assim muito menos no sofá. Tal não era o cansaço.

No dia seguinte, falou-se à refeição que eu tinha de ir ao médico, tinha-me começado a doer o pescoço como se fosse um torcícolo e de tanto tossir de noite saltou-me uma veia no pescoço, do lado esquerdo. Pedi à minha mãe se podia ir comigo, mas como aquela era uma altura de imenso trabalho na loja, a minha mãe não pode despender desse tempo, disse que eu era adulta para tanta coisa, logo também era adulta suficiente para isso, discutimos, como tantas outras vezes, era habitual, dávamo-nos um pouco mal, feitios parecidos, personalidades fortes, etc, o costume. De facto não fui sozinha, com 23 anos e adulta certamente, fui com o meu namorado às urgências do hospital. Achei estranho mandarem-me fazer um electrocardiograma, mas tudo bem, mais um raio x e análises ao sangue. Comecei a pensar se calhar tinha um problema cardíaco, até porque o técnico do electrocardiograma perguntou-me uma série de coisas que me deixou com a pulga atrás da orelha, enfim. Segui para o raio x e passei logo de rompante para a TAC, tudo bem na mesma, preocupada, mas na boa. Quando desci para a urgência vim acompanhada com o técnico do raio x, o que achei anormal, mas... Mandara-me DEITAR na maca para descansar e ficar à espera do especialista que vinha falar comigo, Mau! Pensei, o que se passa?? Com isto tudo tinham passado cerca de três horas desde que tinha abandonado o meu namorado na sala de espera.

Esperei, esperei, esperei, pareceram dias, quando veio o hematologista falar comigo. Sentou-se, perguntou-me como me sentia, eu respondi que bem, mas que pelos vistos não deveria estar... O Dr. disse que eu tinha um linfoma e seguidamente perguntou-me como tinha ido para o hospital, e eu disse de carro com o meu namorado e que morava perto, e ele disse que por morar tão perto podia ir dormir a casa, mas para voltar no dia seguinte para conversar com ele e porque ia ser internada no hospital dos Capuchos de Lisboa. E eu perdi o pio, a única coisa que perguntei foi: linfoma??? É cancro?? O Dr. nem respondeu. Quem cala consente. Fiquei atordoada, mas sem saber ao certo o que tinha. Saí da urgência a chorar e fui direita aos braços do meu namorado, lavada em lágrimas. Contei-lhe. Fui para casa comi qualquer coisa, nem me recordo o quê, expliquei o que se passava aos meus pais e irmã, mas sempre sem acreditar na palavra cancro, embora algo me disse-se que era isso, não sei porquê associei a palavra Capuchos a cancro, sei lá talvez garganta.

Saí de casa para desanuviar e ir fumar uns cigarros. Vim para casa, o meu namorado pela primeira vez dormiu comigo no meu quarto com consentimento dos meus pais, porque pedi e porque estava num estado de nervos tal que queria o apoio dele, é lógico que nem preguei olho a pensar em tudo aquilo.

No dia seguinte lá fui eu com o meu pai para o hospital, falei com o Dr., depois de horas de espera, explicou-me que era um cancro no sistema linfático, que era internada para poder fazer a biopsia, para se saber a tipologia correcta do linfoma, porque existiam muitos e que só depois saberia que tipo de tratamento poderia fazer, mas claro sempre quimioterapia.

Não me recordo se chorei, acho que não, pelo menos lá dentro a minha preocupação era com o meu pai, que se fartava de chorar, e como doente que é porque tem lúpus e epilepsia, sempre me preocupou muito. Não fosse ele ter para ali um ataque com os nervos de tal situação. Mas recordo-me perfeitamente de ouvir o Dr. dizer que este tipo de doenças podiam ter cura, que se passava um mau bocado, sofria-se muito, mas que tinha cura. E eu lembro-me de pensar que me ia CURAR.